Minhas Coisas. Esse é um espaço de organização e de confronto de ideias. Trago ai coisas que tenho como relevantes. Se aconteceu e foi importante para mim, você saberá. Pois você verá aqui.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Sagrado no Mais Você [Rede Globo] - Cultos Afro, Entrevista com Makota Valdina
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Aluno com 106 anos é alfabetizado na Bahia

As mãos que ainda conseguem segurar a enxada são as mesmas que há seis meses começaram a segurar o lápis. Com a disposição de um jovem estudante dedicado, Ubaldo Dias, 106 anos, caminha duas noites por semana para a sala de aula na escola municipal de São João do Paraíso, um distrito de Mascote, no sul da Bahia.
O aposentado é um dos 351 mil alunos do programa Todos pela Alfabetização (Topa), da Secretaria Estadual da Educação (SEC), que já beneficiou 171 mil pessoas na Bahia.
Somente na cidade de seu Ubaldo, a cerca de 600 quilômetros de Salvador, são aproximadamente 600 alunos matriculados em 48 turmas. "Desde 2007, o Topa já realizou o sonho de mais de 500 pessoas nesta região, que antes eram consideradas analfabetas, assim como seu Ubaldo, um verdadeiro exemplo de que nunca é tarde para aprender", afirmou a coordenadora municipal do Topa, Unifleides Ferreira.
O cansaço de mais de um século de vida não parece atrapalhar os estudos de seu Ubaldo. Em casa, ele reforça o aprendizado das aulas com a bisneta Letícia Lisboa, quatro anos.
Os dois aproveitam para treinar as primeiras letras que aprenderam. Questionada sobre como se sentia ao ver o bisavô aprender, assim como ela, a ler, Letícia respondeu: "Feliz".
Na escola, o antigo trabalhador rural acompanha com olhos atentos as explicações da professora Ana Cláudia Lisboa, 22 anos, que, além de alfabetizadora, é sua neta e mãe de Letícia. Três gerações diferentes unidas pelo universo do saber.
"Tanto como professora quanto como neta, me sinto muito orgulhosa do esforço de meu avô em começar a essa altura da vida uma nova etapa. Ele é um aluno atencioso e disciplinado que em pouco tempo conseguiu aprender muitas coisas, apesar de suas limitações", comentou Ana Cláudia.
O sorriso espontâneo e a força de vontade do aposentado animam toda a sala de aula. Seu Ubaldo é tomado como exemplo e estímulo pelos seus colegas de turma.
"Tem gente que não acredita que ainda podemos aprender e ele é a prova contrária", explicou a também aposentada Maria Carmélia, 63 anos, que se senta perto de seu Ubaldo.
Tanto Maria Carmélia quanto seu Ubaldo e os demais estudantes do Topa são submetidos a um modelo construtivista de aprendizado desenvolvido pelo educador Paulo Freire. Trata-se, assim, de uma alfabetização popular que parte da realidade do aluno e utiliza da experiência de vida para ensinar e despertar a cidadania.
Hoje, seu Ubaldo já escreve o nome completo e destacou que não pretende parar de estudar. "Minha neta insistia muito para eu vir aprender e sempre quis saber assinar meu nome completo. Então entrei no Topa e quero continuar a aprender", disse, sorrindo.
Fonte: Diário Oficial da Bahia - dia 27 de outubro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Besouro - o filme
Naqueles tempos pós-abolição nossos negros continuavam tão alijados da sociedade que muitos deles ainda se questionavam se a liberdade tinha sido, de fato, um bom negócio. Afinal, antes de 1888 eles não eram cidadãos, mas tinham comida e casa para morar. Após a abolição, criou-se um imenso contingente de brasileiros livres, porém desempregados e sem-teto. A maioria sem preparo para trabalhar em outros serviços além daqueles mesmos que já realizavam na época da escravatura. E quase todos ainda sem a plena consciência de sua cidadania. O resultado desse quadro, principalmente nas regiões rurais, onde estavam os engenhos de açúcar e plantações de café, foi o surgimento de um grande contingente de negros libertos que continuavam, mesmo anos após a abolição, submetendo-se aos abusos e desmandos perpetrados por fazendeiros e senhores de engenho.
Assim era sociedade rural brasileira de 1897, ano em que Manoel Henrique Pereira, filho dos ex-escravos João Grosso e Maria Haifa, nasceu na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.
Vinte anos depois, Manoel já era muito mais conhecido na cidade como Besouro Mangangá - ou Besouro Cordão de Ouro -, um jovem forte e corajoso, que não sabia ler nem escrever, mas que jogava capoeira como ninguém e não levava desaforo para casa. Como quase todos os negros de Santo Amaro na época, vivia em função das fazendas da região, trabalhando na roça de cana dos engenhos. Mas, ao contrário da maioria, ele não tinha medo dos patrões. E foram justamente os atritos com seus empregadores - e posteriormente com a polícia - que deixaram Besouro conhecido e começaram a escrever a sua imortalidade na cultura negra brasileira.
Há poucos registros oficiais sobre sua trajetória, mas é de se supor que a postura pouco subserviente do capoeirista tenha sido interpretada pelas autoridades da época como uma verdadeira subversão. Não por acaso, constam nas histórias sobre ele episódios de brigas grandiosas com a polícia, nas quais ele sempre se saía melhor, mesmo quando enfrentava as balas de peito aberto. Relatos de fugas espetaculares, muitas vezes inexplicáveis, deram origem a seu principal apelido: Mangangá é uma denominação regional para um tipo de besouro que produz uma dolorosa ferroada. O capoeirista era, portanto, "aquele que batia e depois sumia". E sumia como? Voando, diziam as pessoas...
Histórias como essas, verdadeiras ou não, foram aos poucos construindo a fama de Besouro. Que se tornou um mito - e um símbolo da luta pelo reconhecimento da cultura negra no Brasil - nos anos que se sucederam à sua morte.
Morte que ocorreu, também, num episódio cercado de controvérsias. Sabe-se que ele foi esfaqueado, após uma briga com empregados de uma fazenda. Registros policiais de Santo Amaro indicam que ele foi vítima de uma emboscada preparada pelo filho de um fazendeiro, de quem era desafeto. Já a lenda reza que Besouro só morreu porque foi atingido por uma faca de ticum, madeira nobre e dura, tida no universo das religiões afro-brasileiras como a única capaz de matar um homem de "corpo fechado".
E Besouro, o mito, certamente era um desses.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
É o racismo, estúpidos
O Dep. Luiz Alberto (PT-BA) por sua vez afirmou, em pronunciamento da tribuna da Câmara, que o texto aprovado era “o possível”. E acrescentou: “Em caráter conclusivo, a matéria vai ao Senado Federal, onde também há um acordo para imediatamente se constituir uma Comissão Especial para aprovar o Estatuto, a fim de que o Presidente Lula, ainda este ano, possa sancioná-lo e dar ao Brasil uma oportunidade de se criar uma verdadeira democracia.”
Segundo ainda a reportagem de Bernardo Franco, “o DEM elogiou as mudanças”. Quem conduziu as negociações pelos Democratas foi o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e já se pode bem avaliar a profundidade (e a realidade) da “verdadeira democracia” para a qual se abrem agora todas as oportunidades.
Nublat, aliás, é autora da pérola mais preciosa escrita sobre a versão do Estatuto aprovada ontem na Câmara dos Deputados: “Há também pontos mais práticos, como a possibilidade de o governo criar incentivos fiscais para empresas com mais de 20 empregados e pelo menos 20% de negros.”
Há algumas semanas, a mídia divulgou a discriminação sofrida por Januário Alves de Santana, agredido por seguranças do supermercado Carrefour numa cidade da Grande São Paulo. Todos conhecem a história do homem negro, técnico em eletrônica, que foi acusado de tentar roubar seu próprio veículo, um EcoSport. Acusado e violentamente espancado nas dependências do Carrefour.
Por causa de seus traços fisionômicos, seu fenótipo, e de um conjunto de injunções decorrentes da hierarquização do humano vigente entre nós, Januário vê-se obrigado a rever seu projeto, reduzindo suas dimensões, buscando adequar-se aos limites impostos pelo racismo. Um modelo mais modesto de veículo talvez lhe permitisse acomodar-se aos limites rígidos preestabelecidos, seguramente é o que pensa Januário.
Já sabemos como somos vistos e, a partir desse olhar, como devemos nos definir e conformar nossos projetos. Seria melhor dizer como devemos amesquinhar e reduzir nossos projetos. Sonhos não realizados, esperanças frustradas reafirmando e reforçando a ideologia que previamente nos classificou a todos.
Os parlamentares negros que ontem cantaram e ergueram os punhos fechados e se abraçaram ao DEM, o ministro Edson Santos, a Seppir, a Conen, a Unegro, todos comemoravam no fundo a redução e o amesquinhamento do projeto de Estatuto. Conformaram-se ao “possível”. Confiam que na redução ainda se podem projetar ganhos eleitorais. Vão colher, seguramente, o que plantaram.
sábado, 8 de agosto de 2009
Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou - O Teatro Mágico
Composição: Fernando
Anitelli
Eu não sei na verdade quem eu
sou,Já tentei calcular o meu
valor,Mas sempre encontro sorriso e o meu
paraíso é onde estou...
Por que a gente é desse
jeitocriando conceito pra tudo que restou?
Meninas são bruxas e fadas,
Palhaço é um homem todo pintado de piadas!
Céu azul é o telhado do mundo inteiro,
Sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro!
Mas eu não sei na verdade quem eu sou!Já
tentei calcular o meu valor. E sempre encontro o
sorriso e o meu paraíso é onde estouEu não sei na verdade quem eu sou!
Perguntar de onde veio a vida,por onde
entrei deve haver uma saída,e tudo fica sustentado pela fé
Na verdade ninguém sabe o que é!
Velhinhos são crianças nascidas faz tempo!
Com água e farinha eu colo figurinha e foto em
documento!Escola é onde a gente aprende palavrão...
Tambor no meu peito faz o batuque do meu coração!
Mas eu não sei na verdade quem eu sou.
Já tentei calcular o meu valor, E sempre encontro
o sorriso e o meu paraíso é onde estou!Eu não sei na verdade
quem eu sou!
Percebi que a cada minutoTem um
olho chorando de alegria e outro chorando de luto
Tem louco pulando o muro, tem
corpo pegando doençaTem gente trepando no escuro,
tem gente sentindo ausência!
Meninas são bruxas e fadas, Palhaço é um homem todo pintado
de piadas!Céu azul é o telhado do
mundo inteiro,Sonho é uma coisa que fica
dentro do meu travesseiro!
Eu não sei na verdade quem eu sou, Já tentei calcular o meu
valor,Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou...
Eu não sei na verdade quem eu sou.
Fonte da letra : http://letras.terra.com.br/o-teatro-magico/441013/
sábado, 25 de julho de 2009
Lixo exportado da Inglaterra para o Brasil será devolvido
Os contêineres de lixo exportados ilegalmente pelo Reino Unido para o Brasil serão reembarcados e devolvidos para o porto de origem, na Inglaterra. Em operação do Ibama, 41 contêineres de resíduos sólidos foram lacrados ontem no Porto de Santos, em São Paulo. As seis empresas envolvidas na importação, o consolidador, que realiza o carregamento, e os compradores da carga foram autuados por crime ambiental e multados em R$ 2,5 milhões de reais.
sábado, 18 de julho de 2009
Disque Denúncia chega a 100 mil registros
Nº 848 - Brasília, 17 de Julho de 2009.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Ibama encontra 290 toneladas de lixo vindas da Inglaterra no Porto de Santos
Os contêineres chegaram ao Brasil na última semana, mas só foram abertos na segunda. Uma equipe do Ibama foi até o local para verificar a carga, e levou um susto quando as portas foram abertas. “Isso é um desrespeito com o nosso país, nós não somos o lixão do mundo”, disse uma fiscal.
O lixo doméstico dos ingleses passou por vários países antes de chegar ao Brasil. No Porto de Santos, foram 16 contêineres com 290 toneladas de lixo. Em uma primeira vistoria, os fiscais do Ibama encontraram resíduos de alimentos, cabos de computador, travesseiros molhados e muitas embalagens sujas de produtos de limpeza.
“Nós recebemos uma denúncia do Porto de Rio Grande, porque existia uma carga similar, até mais do que aqui. Então eles pediram para nós verificarmos essa carga da mesma empresa. É um absurdo, um desrespeito com o Brasil”, conta Ingrid Oberg, chefe regional do Ibama.
A empresa importadora e a transportadora foram notificadas. Cada uma terá que pagar R$ 155 mil de multa. O Ibama ainda deu um prazo de 10 dias para que essas empresas devolvam o lixo ao país de origem.
Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, fiscais da Receita Federal encontraram 750 toneladas de lixo no Porto de Rio Grande. O material também foi trazido por navios da Inglaterra e teria sido enviado no lugar de produtos importados por uma empresa gaúcha.
Dentro dos contêineres trazidos ao Brasil pelos ingleses estavam toneladas de plástico, papel e vidro, além de seringas e preservativos. Um dos reservatórios levava brinquedos, com bilhetes informando: “Entregue estes brinquedos para as crianças pobres do Brasil. Lavar antes de usar”.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Campanha por uma internet segura

Eu acesso com segurança, pois:
- Não aceito arquivos de estranhos;
- Evito comprar em sites não conhecidos;
- Evite expor dados pessoais em sites de relacionamento;
- Monitoro e oriento, sempre que possível, crianças e adolescentes no uso da internet.
PEÇA a Nota Fiscal: a Educação Agradece
Se a/o cidadã/o não exigir nota fiscal ao comprar um perfume que custe R$ 40,00 - cuja alíquota do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços ) é de 25% -, a educação pública deixará de receber R$ 2,25 por parte do governo estadual. Esquecer de pedir nota fiscal no momento da compra pode afetar diretamente a qualidade da educação pública brasileira. A afirmação pode soar estranha em um primeiro momento, mas especialistas ouvidos pelo JT* ressaltam que a relação causa e efeito é fácil de demonstrar.
Segundo César Augusto Minto, presidente da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp), a afirmação não só é verdadeira, mas tem sido ponto norteador das ações do Comitê em Defesa da Escola Pública, órgão não-governamental formado por professores dos ensinos básico e superior, alunos e representantes de entidades ligadas à educação. A sociedade ainda desconhece que a verba destinada à educação pública provém do repasse de um porcentual dos impostos pagos pelos próprios cidadãos, afirma.
O educador ressalta que cabe ao cidadão atuar de forma direta contra a sonegação de impostos. Ao criar o hábito de pedir nota fiscal, independentemente do valor da sua compra, o cidadão já estaria contribuindo para uma educação pública de qualidade , diz Minto.
Entretanto, Minto desafia os empresários. De nada adianta uma empresa realizar projetos sociais voltados à educação se ela sonega impostos ou não contrata seus funcionários de forma legal.
Fernando Almeida, ex-secretário municipal de Educação, também destaca a importância da conscientização da sociedade. Não é novidade que a sonegação de impostos afeta diretamente o repasse de verbas para a educação, mas o cidadão tem de lembrar disso sempre que realizar suas compras.
Entretanto, Almeida ressalta o fato de que a verba repassada para a educação também é utilizada para o pagamento de professores, inclusive os aposentados. A verba da educação pode ser alta, mas os gastos com folha de pagamento também são altíssimos.
Na prática
A explicação deste cálculo é simples, pois 75% do valor arrecadado com o ICMS ficam com o governo estadual. Então, 30% destes 75% do ICMS apropriados pelo governo representam o valor exato repassado para a educação.
A coordenadora conta que usou o exemplo da balinha, que funcionou para conscientizar alunos que vinham degradando o material recebido na escola. Chamei todos para conversar e expliquei que, ao comprar uma balinha, o cidadão já contribui de forma direta com a educação pública. Eles não faziam idéia dessa relação. Acho que cabe à escola pública conscientizar pais e alunos sobre a importância da exigência de nota fiscal, diz.
domingo, 21 de junho de 2009
“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

ELIANE BRUM
Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.
Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.
Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.
A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”
A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?
Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranóica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ”
Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva.
Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.
Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto.
Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia.
“Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.
...
Fonte:
domingo, 7 de junho de 2009
Documentário: “Simonal - Ninguém sabe o duro que dei”

Boatos, acusações, mistérios, patrulhas e perseguições. O que aconteceu com Wilson Simonal?
“Simonal - Ninguém sabe o duro que dei” traça a trajetória impressionante do ex-cabo de exército, que reinou soberano e acabou condenado ao ostracismo por um delito que jurava não ter cometido. Através de depoimentos de amigos, inimigos e, principalmente, de imagens das exuberantes performances do grande artista, o filme mostra também as respostas que nunca apareceram. Simonal era informante da ditadura? Era favorável aos militares? Ou seu maior crime foi ser negro, milionário, símbolo sexual num país e numa época em que existia muito racismo?
O documentário traz a história da ascensão e queda de Wilson Simonal (1939-2000), cantor que conseguiu status de estrela numa época em que no Brasil isso era raridade para artistas negros. De origem humilde, ele ganhou destaque na televisão nos anos 60, rivalizando com o domínio de Roberto Carlos e outros ídolos da Jovem Guarda. No auge da fama, dividiu o palco com a cantora Sarah Vaughn, em visita ao Brasil. Acompanhou a seleção brasileira ao México na conquista do tricampeonato, em 1970, e até arriscou a reflexão política sobre a negritude, na canção “Tributo a Martin Luther King”, composta em parceria com Ronaldo Bôscoli. Um incidente nunca esclarecido, envolvendo agentes do DOPS e um ex-empregado seu, lançaram sobre ele um processo criminal e a suspeita de que fosse um delator para as forças de repressão. [retirado do site http://firmaproducoes.com/2009/05/05/documentario-simonal-ninguem-sabe-o-duro-que-dei/ ]
O documentário traz uma brilhante exposição dos fatos que aconteceram, ouvindo inclusive o acusado do desfalque dado na Simonal Produções. Os depoimentos dos seus filhos e da ex-esposa nos trás a tona a discussão: Será que se ele não fosse negro essas coisas se perpetuariam?
O caso de Wilson Simonal é mais um fato de como o racismo impera nas relações socio-politico-economico-cultural do Brasil.
O filme esclarece, questiona, expõe, divulga fatos que infelizmente levaram à morte de um homem que desapareu antes mesmo do seu óbito.
Eu pergunto, "Teria Wilson Simonal sido vítima de uma conspiração racista e que até hoje, mesmo depois de sua morte, ainda paga por tais truculências?"
Vale apenas assistir esse belíssimo documentário que conta com a direção de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Notas sobre turismo sexual
Angélica Feitosa"As imagens e depoimentos passeiam entre o romantismo e a perversidade. Cinderelas, lobos e um príncipe encantado, documentário do cineasta mineiro Joel Zito Araújo sobre o mundo do turismo sexual no Brasil, estreia hoje em Fortaleza."
Menina de 13 anos levada pela mãe ao Instituto José Frota, em Fortaleza, após ser agredida por um cliente/explorador: a garota faz da BR-116 o ponto da própria exploração, na venda do corpo imaturo. Em Natal, uma jovem passeia de mãos dadas com um estrangeiro, enquanto conta para a câmera que, em breve, viajará para fora do País, mas com outro pretendente a marido. Em Berlim, ao som de Fascinação, bailarina mulata samba na ponta do pé, maiô fio-dental, para plateia de nativos germânicos. Todas são negras. O retrato é similar em boa parte das capitais do Nordeste ou com alguma ligação com a região. De tão comuns e banalizadas, chegam a ser vistas como passividade e até permissividade.
O documentário Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado, do cineasta mineiro Joel Zito Araújo, vem para lembrar que é com olhos de estranhamento que essas imagens precisam ser observadas. Isso sem julgamento. A alusão aos contos de fada não poderia ser mais apropriada. O longa nos dá uma significativa amostra dessa rede de sonhos, ilusões, exploração e terror, com alguns espasmos de final feliz, do turismo sexual brasileiro. Em Fortaleza, Natal, Recife e Salvador, Joel Zito entrevistou boa parte dos envolvidos na teia da prostituição: mulheres, homens e travestis que trabalham como garotos e garotas de programa, mas também taxistas e, principalmente, estrangeiros. Em Berlim e em Roma, o diretor também encontrou dançarinas de vários estados do Norte e Nordeste, empresários que costumam visitar o Brasil e casais formados por alemães e brasileiras.
Apesar de não ser o foco do documentário, a questão racial está no cerne da discussão. “Encontrei um dado que ajudou a guiar o documentário: 75% do objeto de desejo do turista estrangeiro são afrodescendentes. Obviamente, isso vem embutido, sobretudo do ponto de vista delas”, conta o documentarista, em entrevista ao O POVO, por telefone. Se os estrangeiros dizem que as negras são mais simpáticas e ao mesmo tempo “quentes” ou soltas sexualmente, essas mulheres confirmam o estereótipo. “Isso é um dos poucos pontos que eleva a autoestima delas. Quanto mais negróides, mais elas serão vistas como feias e não desejáveis no Brasil”. No olhar do estrangeiro, elas percebem que existe uma valorização de suas estéticas. Isso é visto com segurança por essas mulheres. Ao mesmo tempo, dizem não querer casar com um homem de sua cor de pele. “Para limpar o sangue”, chega a afirmar uma das entrevistadas. A dúvida que fica é se essa lascividade não estaria mais perto de uma permissividade. Se, pela autoestima baixa, elas não permitiriam qualquer tipo de situação, mesmo que agressiva ou contra suas vontades.
No documentário, Joel Zito mostra relações que têm no centro a questão financeira e a carência afetiva. A lógica é completamente fora do amor romântico. Muitas delas dizem que não importa com quem possam casar. “Quanto mais o homem paga a gente, mais a gente se apaixona”, conta num depoimento hilário, uma travesti entrevistada no documentário.
Como entrevistador, Joel Zito se destaca. É direto e incisivo, sem ser desrespeitoso. Tem sensibilidade e questiona no momento certo. “Algumas vezes, elas se entregaram demais, revelaram fatos muito íntimos e eu, por respeito, decidi não colocar. Já com os estrangeiros, expus realmente suas contradições”, compara. Um desses homens, um italiano, condena a política de turismo sexual, embora confesse que seja um de seus usuários minutos depois.
O diretor optou por investir num tom nem sempre pesado. Os momentos mais leves estão na parte final, quando o diretor entrevista brasileiras casadas com alemães e apresenta os choques culturais da relação, inclusive de maneira divertida. “São poucas as histórias bem-sucedidas, mas elas existem. Uma jornalista me perguntou o porquê de o filme acabar com uma história feliz, de casamento. Ora, por que as nossas amigas de classe média podem se casar com estrangeiros e serem felizes e as meninas pobres não?”.
EMAIS
- Joel Zito Araújo é professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), autor de A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira (2000), livro e documentário resultado de sua tese de doutorado que forma um inventário da participação e importância de atores negros em produções que vão de 1963 a 1997. Joel Zito fez pós-doutorado no departamento de rádio, TV e cinema e no departamento de antropologia da University of Texas, em Austin, nos Estados Unidos.
- Dirigiu As Filhas do Vento, primeiro longa-metragem de ficção do diretor, com elenco todo negro. Recebeu seis prêmios no tradicional Festival de Gramado, inclusive melhor filme, diretor e prêmio de crítica.
OUTROS DOCUMENTÁRIOS: > São Paulo abraça Mandela (1991), > Retrato em Preto e Branco (1993), > Ondas Brancas nas Pupilas Pretas (1995) > A Exceção e a Regra (1997)
Confira essa materia no site:
http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/881072.html
Doc. Cinderelas, Lobos e um prícipe encantado - de Joel Zito Araújo
Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado participou Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro – Premiére Brasil 2008; 5º. Festival de Cinema de Arte – Salvador, Bahia. Out/2008; FIC - X Festival Internacional de Cinema de Brasília. Novembro 2008. Premio “Menção Honrosa”; Filme de Abertura da – I Mostra Internacional de Cinema sobre Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes – Rio de Janeiro – Novembro 2008. Organizado pelo III Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; II Encontro de Cinema Negro Brasil-África-América Latina. Rio de Janeiro- Nov.2008; FESPACO – Burkina Fasso. Fev-2009.
Criador e diretor dos filmes A Negação do Brasil (vencedor do É Tudo Verdade 2001) e Filhas do Vento (8 kikitos no Festival de Gramado 2005), Joel Zito Araújo realiza documentários desde 1988. Autor dos livros “A Negação do Brasil – o negro na telenovela brasileira” e “O Negro na TV Pública” (no prelo), e vários artigos sobre a mídia e a questão racial no Brasil. Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA /USP.
Vale a pena.
Garanto!!!!!!!!
Assista o trailer aqui abaixo:
[...]
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Matriarcado no Candomblé
Esta produção é uma Grande-Reportagem produzida por Urânia Munzanzu, Vilma Neres e Lívia Machado, estudantes de Comunicação Social (Jornalismo), através do Centro Universitário Jorge Amado. Uma produção pensada para a disciplina de Telejornalismo II, sob orientação da Mestra Silvana Moura.
Salvador, maio de 2009
http://www.youtube.com/watch?v=EdYI-xGJ-fc
terça-feira, 5 de maio de 2009
Entrevista com Yalorixá Stella de Oxóssi
Ialorixá mais reverenciada da Bahia fala em entrevista exclusiva à Web TV
http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1138362
Acompanhe essa belíssima entrevista.
sábado, 2 de maio de 2009
Texto de Jorge Portugal
Mais um texto belíssimo sobre o episódio no Supremo. Esse texto é do professor Jorge Portugal. Encontrei no Mundo Afro, blog da jornalista Cleidiana Ramos, do Jornal A Tarde. Jorge escreve muito bem. E faz um trançado como temas que envolve a história da Resistência Negra casando com o fato que aconteceu no STF.
Vale apenas conferir
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Supremo Ministro!
**Jorge Portugal é educador, poeta e membro do Conselho Nacional de Política Cultural.
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sexta-feira, 1 de maio de 2009
Ministro Joaquim Barbosa. A imagem expressiva de tantos e tantas
Esse mês de abril algo de curioso aconteceu e foi noticiado pela mídia brasileira. Foi o levante de um homem que não se rendeu como vítima do racismo no judiciário. O fato protagonizado pelo Excelentíssimo Senhor Ministro Joaquim Barbosa repercurtiu de forma tão simplória e minimalista pela mídia nacional. Vale apenas rever e fazer outras leituras.Trago a seguir, o video do episódio seguido de dois textos que merecem ser apreciado com bastante atenção. Um dos textos é uma entrevista realizada com o grandioso Abdias do Nascimento. E o segundo texto, foi escrito pelo Jornalista Carlos Alberto Carlão de Oliveira e está postado no seu blog.
Vale apenas conferir.
Boas Leituras
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Abdias: Há racismo contra Joaquim Barbosa

Na década de 40, quando o movimento negro era uma ilha, o dramaturgo Nelson Rodrigues cravava nas gazetas: Abdias do Nascimento é "o único negro do Brasil". E não houve quem o desmentisse. A "flor de obsessão" admirava no ator e ativista negro a "irredutível consciência racial", a coragem de esfregar a "cor na cara de todo o mundo".
Abdias, 95 anos, segue atento às novas gerações do movimento negro. Vibrou com a vitória do presidente Barack Obama, nos Estados Unidos. E hoje, a partir da leitura dos jornais, [...] confira o restante do texto clicando aqui
Até hoje me lembro dessa cena. Ontem, dia 22, quarta-feira,[...]
Carlos Alberto Carlão de Oliveira é jornalista
quarta-feira, 29 de abril de 2009
MEU SONHO NÃO FAZ SILÊNCIO
Seus poemas ultrapassam as barreiras de um português clássico, e passa a compor as várias vozes de guerreiros e guerreiras, pais e mães, jovens negros e negras. Pessoas que desrespeitadas, que são discriminadas.
Limeira vem enaltecê-las. Vem representa-las. Enfim, ele mostra de dentro como são as característica de um ser diaspórico. De um ser que tem azeite de dendê nas veias. Que tem na sua memória a hitórias de reis, rainhas, pais e mães de santos. mulheres e homens que sempre estarão conosco.
Pensando nisso, trago esse poema para conhecimento de todos/as.
MEU SONHO NÃO FAZ SILÊNCIO
Meu sonho jamais faz silêncio
E a ninguém caberá calá-loTrago-o como herança que me mantém desperto
Como esta cor não traduzida em versos
Pois se fariam necessários muitos e tantos versos
Meu sonho vara madrugadas
Som alto
De timbales que se arrebatam em cânticos
E trago-o como Olorum na crença
Que não me pune em pecados
Mas
Enche-me o peito grávido de esperanças
Como malungos marchando ao sol de novembro
Subindo as serras
Defesa e guerra
Meu sonho jamais faz silêncio
É a lança brilhante de Zumbi
A espada de Ogum
É o lê, o rumpi, é o rum
É a furia sem arreios
Terra farta dos anseios
Desacato, ato, sem freios
Vôo livre da águia que não cansa
Me faz erê, me faz criança
Meu sonho jamais faz silêncio
É um griot velho que me conta as lendas
De onde fisga tantas lembranças
E com ele invado chats, pages, sites
Na intimidade de corpos em dança
Perpetuando o gosto pelo correto
Meu sonho é pura herança
Rastro
Dos que plantaram, lutaram, construíram
O que não usufruo
Areia que moldada em vaso
Onde não nos cabe culpas
É lúcido ao sol dos trópicos, charqueado ao frio
É como um fio
Grita alto e bom som
Que o seio do amanhã nos pertence
Carregamos toda pressa
Meu sonho não faz silêncio
E não é apenas promessa
Planta em mim mesmo, na alma
Palmares, Palmares, Palmares
Pelo que de belo, pelo que de farto
Muitos Palmares
Carrega como o vento escritos
Versos de Jônatas, Oliveira, Colina , Semog e Cuti
Alimenta e nutre
Lembrando que esta cor me mantém desperto
E não tenho sustos
Sentinela que tange o eterno quissange
Entende a volúpia do calor que me abriga
Desfaz a mentira , destruindo a intriga
Meu sonho jamais faz silêncio
Como um Ilê Aiyê acordando a liberdade
Descobrindo amante ávido o sexo pulsante da existência
Desejo de navegar todos os mares
Comandando todas as fragatas, naves
E nos lança em um solo de Miles
Nos recria em um solo de Coltrane
Clássico como Marsalis, Jazz como Marsalis
E que nem tentem que faça silêncio
Pois voltaria gritando em um texto de Solynca
ás que completa a trinca
Torna-se um canto de Ella, Graça, Guiguio, Lecy
Gente negra, gente negra
Jamelão, mangueira
Brilho da mais brilhante estrela
Nunca se estanca, bravo se retraduz em sina
Só não lhe cabem
Crianças arrancadas da escola
Pela fome que rasga gargantas
E nos promete vê-las
Alimentadas todas, cultas
Meu sonho é uma negra criança
Que luta
Ergue Quilombos, aqui , ali
Em cada mente, em cada face
Impávidos como Palmares, impávidos Ilês
Em todos os lugares
Meu sonho não faz silêncio
Porque feito de lida
Teimoso como esta cor
Para sempre será desperto e certo
Mais que vivo, é a própria vida.
(José Carlos Limeira)
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Ministério Público pede suspensão de programa de TV na Bahia

O Ministério Público do Estado da Bahia entrou com uma ação 07/04, pedindo a suspensão imediata do programa Na Mira, da TV Aratu, retransmissora do SBT no estado. A ação civil pública foi enviada à Justiça no dia 07/04, mas até o momento a emissora não foi notificada.
De acordo com os promotores Almiro Sena e Isabel Adelaide Moura, o programa, sob o pretexto de “mostrar a vida real”, apresenta cenas de extrema violência e constrangem, ilegalmente e de forma humilhante, pessoas que são presas pela polícia, “ofendendo, dessa forma, direitos e garantias fundamentais da pessoa humana”.
“O problema deste programa não é o de eventualmente ter ultrapassado, nesse ou naquele ponto, os limites do direito humano fundamental da liberdade de ‘expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença’. O problema é muito maior, pois o Na Mira viola de forma sistemática, reiterada e ostensiva, uma série de outros direitos fundamentais igualmente importantes”.
O programa, na visão dos promotores, realiza a “execração pública, inclusive com xingamentos de pessoas suspeitas, processadas ou condenadas pela prática de algum crime”. Com isso, é violada a Constituição, já que ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Os promotores destacam ainda que, socialmente, a pessoa, ainda que absolvida, está antecipadamente condenada e com parcela razoável de sua vida prejudicada.
Os promotores também acusam o programa de chancelar a prática de abuso de autoridade por parte da polícia, “fato que já motivou uma recomendação do Grupo de Atuação Especial para o Controle Externo da Atividade Policial”.
“(O programa) utiliza-se covardemente da justificativa de servir ao interesse público, para fazer exatamente o oposto. Ou será que humilhar, xingar, ridicularizar e expor indevidamente, e da pior forma possível, a imagem de pessoas pobres ou paupérrimas presas nas Delegacias de Polícia é atender ao interesse público?”.
O diretor da TV Aratu, Nei Bandeira, informa que a emissora irá se posicionar somente após ser notificada pela Justiça.
Com informações do MPE-BA
quinta-feira, 16 de abril de 2009
PROGRAMA “NA MIRA” É SUSPENSO PELA JUSTIÇA

domingo, 12 de abril de 2009
Você sabe o significado da palavra "TXAI"
Certa vez ouvindo o DVD Pietá, do Cantor e Compositor Milton Nascimento, uma história me chamou a atenção. Em uma das faixas do DVD, Milton conta uma história que ele conheceu em uma parte da Amazônia, pelas bandas do Acre.
A história que trago logo mais, retrada a sabedoria popular, costumes e valores que hoje em dia temos a preocupação que os novos tempos não assimile.
Essa palavra que achei singela e muito aconchegante "TXAI", é a representação de um laço afetuoso que é comum até nos dias de hoje. Trago essa história na perspectiva de fazer alusão aos valores que aprendemos com os/as nossos/as mais velhos/as.
Pesquisando na internet descobri entre resortes e hoteis um cd do Próprio Milton Nascimento de 1990, onde disponibilizo o link para que os/as interessados/as possam conhecer, fazendo o donwload do arquivo.
A palavra TXAI significa mais do que companheiro, a outra metade de mim, na língua dos índios da tribo Kaxinawá, do Acre.
Milton Nascimento relata essa história e nos deixa como uma forma singela de refletir nossas relações. No DVD ele oferece aos companheiros de palco numa bonita e simples homenagem. Agora cabe a nós observar e saber quem são nossos/as verdadeiros/as Txais da nossa vida.
Segue a história contada por Milton Nascimento:
Bom, eu tenho que contar uma pequena história aqui. Quando eu fui para a Amazônia, no Acre, a gente foi de canoa, barco, essas coisas todas e de repente passava alguém e a gente ouvia,
“Hei TXAI”.
Ai eu achei muito bonito esse negócio de chamarem “TXAI”, e esperei assim uns dois dias, até por que Índio, Seringueiros essas coisas é bom pegar eles numa hora que ele estejam afim de falar.
Então, acabei achando um que chegou e me falou.
TXAI
Mais que amigo, mais que irmão, a metade de mim que existe em você, é a metade de você que
habita em mim.
Quatro letras
E quando, alguém te chama de TXAI, essa pessoa ta pronta pra dar a vida dela no lugar da sua, se for o caso.
Retirado do DVD Pietá, Milton Nascimento, 2006.
Click na imagem para baixar o cd
Faixa do CD
1.Abertura: Milton Nascimento - Fala de Davi Kopenawa Yanomami
2.Txai (Márcio Borges - Milton Nascimento)
3.Baú metoro (Ukre)
4.Coisas da vida (Milton Nascimento - Fernando Brant)
5.Hoeiepereiga
6.Estórias da floresta (Milton Nascimento - Fernando Brant)
7.Yanomami e nós [Pacto de vida] (Milton Nascimento - Fernando Brant)
8.Awasi
9.A terceira margem do rio (Caetano Veloso - Milton Nascimento)
10.Benke (Márcio Borges - Milton Nascimento)
11.Sertão das águas (Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)
12.Que virá dessa escuridão?(Milton Nascimento - Fernando Brant)
13.Curi curi [Tsaqu Waiãpi] [Fala de River Phoenix]
14.Nozanina (Lobos - Roquette Pinto)
15.Baridjumokô (Ukre)
Para outro cds de Milton Nascimento basta clicar aqui
sábado, 11 de abril de 2009
OS AFRO-SAMBAS DE BADEN E VINICIUS
Um cd para resgatar o brilhantismo de dois gênios da música popular brasileira. Sem dúvida, vale a pena escultar.
Considerado por muitos críticos como um divisor de águas na MPB por fundir vários elementos da sonoridade africana ao samba carioca, "Os Afro-sambas" é o segundo LP lançado pela parceria Vínicius de Moraes/Baden Powell.
O grande destaque do álbum é a faixa de abertura "Canto de Ossanha", futuro clássico da MPB, que conta com a participação nos vocais da atriz Betty Faria e na flauta de Nicolino Cópia.
Faixas
Todas as faixas são de autoria conjunta de Vinícius de Moraes e Baden Powell
Canto de Ossanha
Canto de Xangô
Bocoché
Canto de Iemanjá
Tempo de amor
Canto do Caboclo Pedra-Preta
Tristeza e solidão
Lamento de Exu
[Retirado do site http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Afro-sambas_(1966)]
Click na imagem para baixar o CD
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Famila representação de Identidade, Ancestralidade e Resistência
Para registrar minha primeira postagem, trarei a baixo um conto que para mim simboliza muito. Ele foi retirado do livro Mitos afro-brasileiros e vivências educacionais da Professora Vanda Machado.
Esse texto é muito significativo no dia de hoje, onde a família baiana senta-se à mesa para celebrar uma representação que vai além de valores cristãos, claro que não nego os valores presentes, mais é um fenômeno curioso esse de celebrar a morte de cristo com um farto banquete.
Por que em um dia onde cristão católicos, protestantes, adventistas celebram a Sexta-feira Santa de forma mais introspectiva várias famílias ainda celebram com banquetes fartos, tanto de comida como de pessoas, parentes, chegados, amigos, amigos de amigos? É uma verdadeira celebração de valores cheios de símbolos e significados.
Cito o conto adaptado por Vanda Machado para exaltar a importância dos valores familiares presentes na Sexta-feira Santa. Um reconhecimento dos pressupostos téoricos da diáspora africana, aplicado diretamente nas relações familiares baianas, o tripé Identidade, Ancestralidade e Reistência.
Só quem vive, sabe da importância disso para as nossas vidas.
Segue o texto:
"Conta-se que um velho, percebendo que a morte se aproximava, chamou os filhos um por um para apresentar-lhes a herança. Todos reunidos, pediu ao filho mais velho que lhe trouxesse uma vassoura. Um tipo de vassoura utilizada na Nigéria, por exemplo, não tem cabo e é feita com muitas fibras tiradas das folhas de palmeiras e amarradas num feixe bem firme.O velho pai tomou algumas das fibras e distribuiu entre os filhos, pedindo que as quebrassem. Todos fizeram a mesma experiência com facilidade. O velho tomou o feixe de fibras e novamente pediu que os filhos experimentassem quebrar todas as fibras juntas. Todos tentaram e não conseguiram, obviamente. Os filhos colheram os últimos suspiros do ancião que deixou como maior bem o sentido da união que fortalecem as famílias."**
Viva os valores presentes que edificam e solidificam a família. E viva a todas as Sextas-feiras que trazem essa representação viva para a população brasileira afrodescendente.


